Gritos silenciados, traumas escondidos

A violência obstétrica é caracterizada, de acordo com cartilha desenvolvida pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo, pela apropriação dos corpos e processos reprodutivos das mulheres por meio de agressões físicas ou psicológicas por parte dos profissionais da saúde. É o abuso de medicações e procedimentos, tratamento desumanizado e desrespeito ao processo fisiológico e natural que é a geração de uma nova vida, causando a perda da autonomia e poder de decisão feminino durante a gestação, parto, ou em situações de aborto.

Se tal violência não apenas existe, mas apresenta dados estatísticos alarmantes no país, por que é que se fala tão pouco sobre suas vítimas e consequências? A resposta é simples, mas vem acompanhada de outra pergunta: como desmistificar procedimentos médicos que são há décadas tidos como verdades absolutas?

A grande questão para a perpetuação desse tipo de violência é a carência de informação, legislação e os mitos que rondam o momento do parto e que fazem com que tais agressões se mantenham às escuras. Há no médico a figura de um ser extremamente capaz e um tanto quanto heroico, portanto muitas mulheres sentem-se pequenas e incapazes de questionar uma autoridade reforçando a situação de poder entre médico e paciente.

A maior das problematizações vem quando muitas dessas mulheres se esquecem de que o parto, antes de mais nada, é um procedimento natural e fisiológico. Esquecem-se que devem ser as verdadeiras protagonistas em absolutamente todos os momentos da gravidez.

São consideradas violência obstétrica a negligência, agressões verbais envolvendo a sexualidade da mulher, assim como sua etnia, idade, escolaridade, número de filhos e situação social, pressão psicológica, jejum de água e comida, excessivos exames de toque e por diferentes pessoas, o uso do fórceps – aparelho que tem forma de uma espécie de pinça usada para retirar o bebê – amarrar braços e pernas das mulheres impedindo seus movimentos e soro com ocitocina para acelerar o trabalho de parto.

A episiotomia – corte na vagina para aumentar a passagem do bebê – e a chamada manobra de Kristeller – forte pressão sobre a barriga da parturiente para empurrar a criança – são dois exemplos de procedimentos que são frequentemente realizados em hospitais, mas que já são apontados há décadas por médicos defensores do parto humanizado como desnecessários e que trazem possíveis traumas e perigo para a vida da mãe e do bebê.

Os agendamentos excessivos de cesáreas também são considerados formas de violência obstétrica, já que há uma forte cultura em torno do procedimento que o indica como o menos doloroso, mais “moderno” e o que causará menos impactos. É verdade que a cesárea pode, em casos extremos, salvar a vida da mãe e do bebê, mas na maioria das vezes, cordão umbilical enrolado no pescoço, pouco líquido amniótico, bacia estreita e pouca dilatação são apenas desculpas para que a cesárea – mais rápida e cara que o parto normal – possa ser realizada.

Vale ressaltar que não é errada a opção por uma cesárea, desde que as mulheres estejam conscientes de seus riscos e de que esta cirurgia seja uma decisão e não uma imposição médica. A grande chave da questão é a autonomia feminina antes, durante e no pós-parto.

Há ainda aqui uma questão de gênero, mais um dos inúmeros tipos de violências que as mulheres são submetidas dentro de uma sociedade patriarcal. A apropriação do corpo das mulheres de modo que imposições sociais supram suas escolhas.

A violência obstétrica afeta também a família quando os parceiros são proibidos de acompanharem o momento do parto – caso que minimiza os atos de agressão, já que há no ambiente uma testemunha –  ainda que haja uma lei alterada em 2005 que aprove que a parturiente possa ter no momento do parto o acompanhante que desejar. Afeta a criança que nasce prematura de uma cesárea agendada e que muitas vezes não é levada em contato com a pele da mãe imediatamente após o nascimento, trazendo riscos de saúde ao bebê.

De modo geral, a grande mídia retrata a violência obstétrica como situação emergencial apenas em casos mais alarmantes como os que resultam na morte da mãe ou do bebê. O fato é que todas as outras violências menos explícitas, mas que ferem a autonomia, sexualidade e dignidade das mulheres devem ser esclarecidas a toda população para que o quadro possa um dia ter fim. Quaisquer agressões, ainda que mais veladas, traumatizam as vítimas; por vezes, o sentimento que as mulheres carregam, após humilhações, é o de culpa, ressentimento, rejeição do seu próprio corpo, temor à relações sexuais e à possíveis novas gestações.

A luta é pela não silenciação de mais uma das tantas violências contra as mulheres; é pelo poder de decisão feminino por seus próprios corpos e para que a gestação e parto, momentos sublimes especiais em suas vidas, sejam marcados, não por traumas, mas por seu empoderamento e protagonização

O corpo é seu, assim como suas escolhas.

.

 Texto: Mainá Belli

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s